A FÁBULA SEM MORAL

Era uma vez… Um reino não muito distante, conhecido como Terra das Galinhas. A imensa quantidade de galináceas, maioria da população, era o que dava nome àquele lugar encantado. Porém, ali também habitavam todas as espécies de aves, desde as mais majestosas até a ralé – que por ironia, ora vejam, eram justamente as galinhas…
O maior tesouro do reino, os grãos de milho, serviam como alimento e moeda de troca. Infelizmente, tal riqueza estava concentrada nas mãos dos governantes, os Abutres, que dividiam as migalhas de poder com Gralhas, Papagaios, Pombos e outras ávidas aves de rapina. Tudo começou a mudar quando um grupo, o dos Urubus, achou por bem lutar para que as riquezas fossem melhor distribuídas entre todos. Em especial, os mais pobres. Gostou? Leia mais!

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OUTRA CANÇÃO DE AMOR

Eu o via todo fim de semana, no Bar do Samba. Sentava-se sempre o mais próximo possível do palco e ali tomava três doses de uísque barato e um pouco d’água. Tinha o terno alinhado, porém não se podia dizer o mesmo de sua gravata, sempre levemente torta. Para uma garota como eu, o que mais chamava a atenção era seu ar de menino perdido.
Enquanto eu cantava sobre o palco, raramente ele me olhava. Parecia hipnotizado capturando as notas no ar, com um sorriso quase infantil. Era um jovem rapaz, 20 e poucos anos talvez, mas tinha um quê de homem vivido. Quando eu chegava ao Bar, ele já estava lá. Quando eu ia embora, ele ainda estava lá. Sempre na mesma cadeira. Foi assim por quase três meses até que, em agosto de 1946, ele dirigiu a mim suas primeiras palavras.
- Percebi que o menino do danado dos olhos meus quis fugir pra se encontrar com a menina que mora nos olhos teus…
- Nelson Gonçalves? – respondi com surpresa.
- Achei que não fosses reconhecer essa canção. – disse ele, olhando para baixo.
- Impossível, essa música toca no rádio toda hora. Os versos, você os canta pra mim?
- Quem sabe? A senhorita é uma excelente cantora, parabéns!
- Obrigada. Te vejo amanhã aqui?
- Amanhã é sábado. Então, sim…
- Até!
Foi uma conversa breve, na qual percebi tudo: a gravata torta, o olhar perdido, a cabeça baixa o tempo todo… Pobre rapaz, tão jovem e cego. Seu Olegário, dono do Bar, foi quem me disse: seu nome era Miguel e ele fora um pracinha na Segunda Guerra, um ano antes. Uma granada explodiu próxima ao rapaz, cegando o infeliz. Gostou? Leia mais!

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A PRINCESA DOS PEDREIROS

Bastava Soninha, a sinuosa, passar perto de uma construção e pronto…
- Ô lá em casa. Benzadeus!
- Eu num sabia que boneca andava!
- Delícia, assim ocê me mata!
Não havia pedreiro que resistisse a seu requebrar de quadris. Ousada, Soninha sabia como poucas que o verdadeiro poder de um vestido não está no que ele mostra, mas sim no que ele insinua.
- Que pandeiro, hein, dona!
- Quanta abundância!
- Tem um quarto procê no meu puxadinho!
E lá ia ela, sobre o salto plataforma, fazendo cara de brava (enquanto por dentro, sorria de satisfação). Soninha não era magra, tampouco dessas mulheres halterofilistas tão em voga. Estava mais para uma pintura de Botticelli, levemente farta e – por isso mesmo – encantadora. O único que não via isso era justamente Romualdo, seu marido. Gostou? Leia mais!

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É TUDO SEXO, CARA

Talvez fosse o álcool, talvez fossem os hormônios – mais provavelmente, a mistura dos dois. Entre goles e risadas, lá estavam os dois a elaborar teses aprofundadas sobre os pilares mais existencialistas e hermenêuticos do planeta Terra.
- Tô te falando, Carlão! – disse Tiago, entre duas goladas de cerveja.
- Larga de falar besteira. – respondeu o outro, num tom de deboche.
Era noite de terça e, como de costume após as aulas da faculdade, ficavam na mesa quatro do Bar do Alemão (que na verdade era coreano) enchendo a cara e jogando conversa fora.
- Posso só te dar um exemplo, unzinho só?
- Lá vem merda.
- O frasco de desodorante. Tem o formato do que?
- É… tá, esse vale. Mas, é só!
- O batom, aquele que serve pra mulher passar na boca.
- OK, duas coisas. Mas daí dizer que tudo tem a ver com sexo…
- Calma, tem mais, tem mais… Vou te provar. O formato da garrafa.
- É a ergonomia, cara!
- E o nariz do Lula Molusco? Vai dizer o que? Gostou? Leia mais!

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PEIXE FORA DO AQUÁRIO

Dona Candoca tinha 16 anos quando, num belo dia, seu pai lhe apresentou aquele rapaz garboso, de nome Artemiro, e a informou que os dois combinavam e deveriam se casar. Mas isso foi há exatos cinquenta anos e, para comemorar data tão especial, Candoca e Artemiro foram a um restaurante celebrar bodas de ouro. Depois de tanto tempo casados, não tinham muito o que conversar. Assim, a velhinha pôde prestar atenção à mesa ao lado, onde estava um casal de jovens.
Até onde Candoca conseguira perceber, o caso dos dois não era muito diferente do seu: um belo dia, um site de relacionamentos disse que Edgar e Priscila combinavam e poderiam até se casar. E ali estavam os dois, tentando se conhecer…
- Então, cê é nerd. – perguntou Priscila, curiosa.
- Não exatamente… – respondeu Edgar, ainda tímido.
- Sei… mas, cê disse que seu filme preferido é Senhor dos Anéis.
- É.
- Então, viu? Cê é nerd.
- Eu acho que não é só por…
- Qual seu signo?
- É… peixes. Acho.
- Ah, então é por isso. E seu ascendente?
- Não sei.
- Como não? Ascendente é mais importante que signo, sabia?
- Não me ligo muito em horóscopo.
- Mas devia. Eu sou de aquário. Isso é tudo que cê precisa saber sobre mim. Gostou? Leia mais!

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SE AMAR, NÃO DIRIJA

O carro andava lentamente pelas ruas. Dentro dele, o rapaz e um senhor com uma prancheta.
- Tipo, na vera, mesmo, eu nem queria tirar carta de motorista, sabe? – continuou o jovem.
- Aham, agora, presta atenção naquele semáforo.
- Tô tirando por causa da Marcinha, tá ligado? Quando eu chegar de carro na casa dela… véio, aí sim! O que cê acha?
- Que você acabou de avançar um sinal vermelho. Menos três pontos. – disse friamente o examinador.
- Não, eu falei sobre a Marcinha.
- Não estava prestando atenção. Você poderia, por favor, colocar as duas mãos no volante?
- Opa, foi mal. Eu sei que a hora não é boa pra discutir vida sentimental, seu delegado, mas eu não entendo ela, saca?
- Adolescentes…
- Adolescente não, já sou adulto. Acabei de fazer 18! Gostou? Leia mais!

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QUEM É LEONARDO?

- Aí! É aí!
- Aqui?
- Aíííí!
- Tá gostoso?
- U-hum. Assim!
- Assim, amor?
- Isso, Leonardo!
- Leonardo?
- Hummmm! Que delícia…
- Você me chamou de Leonardo?
- Quê? Que Leonardo?
- É isso que eu tô te perguntando.
- E eu que vou saber, você que falou nesse tal de Leonardo.
- Porque você me chamou de Leonardo.
- Tá doido, Pedro Henrique! Gostou? Leia mais!

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SANTINHO | Roteiro para curta-metragem

CENA 1. BAR DE ESQUINA. INT. DIA.

Um bar de esquina, simples e sem requinte numa pequena cidade. Alguns clientes estão sentados ao balcão e outros nas poucas mesas existentes. Atrás do balcão há duas pessoas: o Funcionário e Joca, o proprietário do bar, um sujeito de meia idade. Entra em cena Frutoso, tipo malandro e cheio de lábia.

FRUTOSO – Bom dia, meu caro Joca! Vejo que os negócios estão prosperando, bar cheio…

JOCA – (seco) E essa, agora? Vai querer o quê?

FRUTOSO – Aquele cafezinho, ora. Afinal, sabe, essa não é uma visita social…

Joca fecha sua expressão. Ao fundo, chega Dona Conceição, uma senhora aparentando 70 anos, forte batom vermelho, maquiagem exagerada. Gostou? Leia mais!

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PLANO B

- Aí vem Ele! – anunciou Gabriel.
Os anjos puseram-se de pé e soaram suas trombetas. Subitamente, todos os presentes levantaram-se e, em meio a nuvens alvas e tranquilas, surgiu o Todo Poderoso. Um querubim, ao som de cítaras e harpas, anunciou solenemente:
- Declaro aberta a Reunião Celestial de Emergência. Com a palavra, Ele.
- Amados filhos, sentem-se. – disse o Pai de todos.
- Pra que esta reunião de última hora, Senhor? – indagou Davi, baixinho e atrevido como sempre.
- Ó, Magnânimo, seu semblante não é dos melhores. – notou Maria.
- De fato, bem o reparastes. É que as coisas na Terra não andam nada bem.
Burburinho entre santos, profetas, anjos e agregados. Em meio ao imbróglio, Abraão levantou a mão.
- Antes de prosseguirmos, Senhor, posso fazer uma pergunta?
- Diga, Meu filho.
- O que… ele faz aqui?
- Ele quem?
- Ele, – intrometeu-se Noé, apontando com o dedo – o Capiroto, o Zé Pilintra, Cramulhão, Diabo, Demônio, Mefisto… esse Chifrudo fedendo a enxofre!
- Não vos exalteis! Sendo Eu justo, nada mais natural do que convocar também o partido de oposição. Será que agora posso começar a reunião?
- Claro, ó Rei dos reis. O que tanto o aflige? Gostou? Leia mais!

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O FIM DO NATAL | Capítulo II

Perdeu o Capítulo I? Clique aqui.

II

A dor da perda é das mais aterradoras que o ser humano pode sentir, cria no centro do corpo um tipo de ímã que nos puxa para dentro de si. Ali só há solidão, saudade, miséria, fraqueza. Mergulhados num abismo de memórias e ressentimentos, resta-nos pensar em tudo o que teríamos feito de modo diferente e em tudo que ficou por fazer – e nunca mais será feito.

Por sorte, não há dor que seja eterna. E, mais hora, menos hora, algo nos puxa de volta para o mundo exterior.

 

III

- Quando é o natal? – perguntou um garoto miúdo de olhos saltados para sua mãe.

- É amanhã, menino. Agora, para de arrastar o pé. Anda direito…

- O Papai Noel vai vir?

- Não, filho, vem não… Não mais. Gostou? Leia mais!

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