HERÓI NACIONAL

Dentre tantos traços de caráter do brasileiro, talvez aquele que mais se destaque seja o de tirar o mérito de nossos semelhantes. Basta vermos alguém se destacar e, pronto! Já nos colocamos a buscar-lhe os defeitos. Pode ser esta a razão de não termos heróis nacionais, mesmo já passados cinco séculos do descobrimento. Pedro Álvares Cabral? Encontrou o Brasil por acaso. Tiradentes? Não queria a independência da colônia, mas sim pagar menos impostos. Dom Pedro II? Um corno glutão. E o José, então?
– Que José?
– O José, filho do finado Seu Tonho.
– Ah, o Zé. Que tem ele?
– Não soube? Só se fala nisso.
– Não diga que morreu?! Tão jovem.
– Nada, tá vivinho da silva, graças ao bom Deus. O cara é um herói.
– O Zé?  Continuar lendo

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ANJO NEGRO

I

 

A rua está vazia. É o bom de morar de frente prum cemitério, a vizinhança é tranquila. Quieta.

Só ouço as sirenes. Não devem estar longe. Será que sabem onde estou? Sabem que fui eu? Não, não podem saber. Só eu sei. Disso tenho certeza. Ninguém sabe que a matei.

Só eu. Eu e o anjo. Mas, ele não vai contar. É nosso segredo. Ele me olha agora, o anjo. Imenso, imóvel, negro, sobre o muro do outro lado da rua. Eu o vejo da janela de casa. Ele sabia o que eu fazia e não me deteve. Ele permitiu, sabia que eu estava certo. Precisei matar, não tive escolha. Não depois do que ela fez. Ah, Dani, eu amava só você. Você amava qualquer um.   Continuar lendo

AMIGOS DO FEICE

Depois de muitas horas sem sair do quarto, o estoque de Cheetos acabou. Não foi logo de cara que Marcos saiu da frente do computador. Foi-se o dia (e também a noite) até que finalmente a fome o vencesse. E fazia tanto tempo que o garoto não tirava a bunda da cadeira que, na tentativa de executar a difícil manobra chamada “andar”, o rapaz acabou escangalhando o próprio pé. Morrendo de dor, conseguiu sentar-se na novamente. Não teve dúvidas, fez a mesma coisa que qualquer pessoa em sã consciência faria: postar no Facebook.

 

Marcos: GALERA ACABEI DE QUEBRAR O PÉ. PRECISO DE AJUDA

 

Rapidamente, uma dezena de amigos curtiu o post.

 

Ana: lol

R3nat0: pelo menos não quebrou a mão. tá eskrevendo ainda kkkkkkk

Joana Diaz: kkk

Marcos: PO, GALERA. TA DOENDO MUITO, ALGUÉM AJUDA PFV

Ana: lol :P

Daiana Razzi: tadinho, fica bem, saudade de você. Bjkas  Continuar lendo

A FÁBULA SEM MORAL

Era uma vez… Um reino não muito distante, conhecido como Terra das Galinhas. A imensa quantidade de galináceas, maioria da população, era o que dava nome àquele lugar encantado. Porém, ali também habitavam todas as espécies de aves, desde as mais majestosas até a ralé – que por ironia, ora vejam, eram justamente as galinhas…
O maior tesouro do reino, os grãos de milho, serviam como alimento e moeda de troca. Infelizmente, tal riqueza estava concentrada nas mãos dos governantes, os Abutres, que dividiam as migalhas de poder com Gralhas, Papagaios, Pombos e outras ávidas aves de rapina. Tudo começou a mudar quando um grupo, o dos Urubus, achou por bem lutar para que as riquezas fossem melhor distribuídas entre todos. Em especial, os mais pobres. Gostou? Leia mais!

OUTRA CANÇÃO DE AMOR

Eu o via todo fim de semana, no Bar do Samba. Sentava-se sempre o mais próximo possível do palco e ali tomava três doses de uísque barato e um pouco d’água. Tinha o terno alinhado, porém não se podia dizer o mesmo de sua gravata, sempre levemente torta. Para uma garota como eu, o que mais chamava a atenção era seu ar de menino perdido.
Enquanto eu cantava sobre o palco, raramente ele me olhava. Parecia hipnotizado capturando as notas no ar, com um sorriso quase infantil. Era um jovem rapaz, 20 e poucos anos talvez, mas tinha um quê de homem vivido. Quando eu chegava ao Bar, ele já estava lá. Quando eu ia embora, ele ainda estava lá. Sempre na mesma cadeira. Foi assim por quase três meses até que, em agosto de 1946, ele dirigiu a mim suas primeiras palavras.
– Percebi que o menino do danado dos olhos meus quis fugir pra se encontrar com a menina que mora nos olhos teus…
– Nelson Gonçalves? – respondi com surpresa.
– Achei que não fosses reconhecer essa canção. – disse ele, olhando para baixo.
– Impossível, essa música toca no rádio toda hora. Os versos, você os canta pra mim?
– Quem sabe? A senhorita é uma excelente cantora, parabéns!
– Obrigada. Te vejo amanhã aqui?
– Amanhã é sábado. Então, sim…
– Até!
Foi uma conversa breve, na qual percebi tudo: a gravata torta, o olhar perdido, a cabeça baixa o tempo todo… Pobre rapaz, tão jovem e cego. Seu Olegário, dono do Bar, foi quem me disse: seu nome era Miguel e ele fora um pracinha na Segunda Guerra, um ano antes. Uma granada explodiu próxima ao rapaz, cegando o infeliz. Gostou? Leia mais!

A PRINCESA DOS PEDREIROS

Bastava Soninha, a sinuosa, passar perto de uma construção e pronto…
– Ô lá em casa. Benzadeus!
– Eu num sabia que boneca andava!
– Delícia, assim ocê me mata!
Não havia pedreiro que resistisse a seu requebrar de quadris. Ousada, Soninha sabia como poucas que o verdadeiro poder de um vestido não está no que ele mostra, mas sim no que ele insinua.
– Que pandeiro, hein, dona!
– Quanta abundância!
– Tem um quarto procê no meu puxadinho!
E lá ia ela, sobre o salto plataforma, fazendo cara de brava (enquanto por dentro, sorria de satisfação). Soninha não era magra, tampouco dessas mulheres halterofilistas tão em voga. Estava mais para uma pintura de Botticelli, levemente farta e – por isso mesmo – encantadora. O único que não via isso era justamente Romualdo, seu marido. Gostou? Leia mais!