HERÓI NACIONAL

Dentre tantos traços de caráter do brasileiro, talvez aquele que mais se destaque seja o de tirar o mérito de nossos semelhantes. Basta vermos alguém se destacar e, pronto! Já nos colocamos a buscar-lhe os defeitos. Pode ser esta a razão de não termos heróis nacionais, mesmo já passados cinco séculos do descobrimento. Pedro Álvares Cabral? Encontrou o Brasil por acaso. Tiradentes? Não queria a independência da colônia, mas sim pagar menos impostos. Dom Pedro II? Um corno glutão. E o José, então?
– Que José?
– O José, filho do finado Seu Tonho.
– Ah, o Zé. Que tem ele?
– Não soube? Só se fala nisso.
– Não diga que morreu?! Tão jovem.
– Nada, tá vivinho da silva, graças ao bom Deus. O cara é um herói.
– O Zé? 
– Salvou seu Malvino e Dona Encarnação dum incêndio.
– O Zé? Quando?
– Ontem, no asilo. Um fogaréu. Todo mundo correndo pra se salvar, esqueceram os dois velhinhos lá dentro, coitados. O Zé tava passando, ouviu os gritos, socorro, socorro, ajuda! O Zé, grande José, corajoso que só, entrou lá e tirou os dois na maca.
– Larga a mão de mentira. O Zé? Aquele Zé?
– Herói.
– Sei…
– Como assim?
– O mesmo Zé que não sai da Casa da Dadá?!
– Jura? Viu ele lá?
– Ver eu não vi, que sou de família, não frequento puteiro. Mas, me disseram.
– Só porque ele dá umas puladas de cerca não muda nada. O cara salvou dois velhinhos de virar churrasco.
– O Zé é trambiqueiro, rapaz, conheço.
– Da zona?
– Já disse, não sou de ir na Dadá. Conheço assim, de ouvir falar, aquele lá não presta.
– Inveja.
– Daquele lá? Pfff. Prefiro ter minha honra do que ser… “herói” que nem o Zé.
– Não dá pra conversar com você.
– Acho que já sei. O Zé é casado com quem?
– Com a Nélia.
– E ela trabalha onde?
– Ué, na mercearia do Seu Osório.
– Hum… E os pais dele?
– Onde você tá querendo chegar?
– Os pais?
– Debaixo da terra, mãe e pai, Deus os tenha.
– Ele tem irmã?
– A Salete.
– Trabalha de quê?
– Secretária do prefeito, ou do vice, não lembro.
– Ahá! É isso.
– Isso o quê?
– Tá na cara, é uma jogada.
– Não tô entendendo, o cara arriscou a vida pra…
– É o que ele quer que você pense. O Zé que eu conheço não faria isso à toa.
– Você disse que mal conhecia o Zé.
– Me basta o que eu sei. Na próxima eleição ele se candidata a alguma coisa.
– O Zé?
– O Zé. Quer apostar?
– Baita duma inveja, isso sim.
– Do Zé? Se bobear, foi o próprio Zé que botou fogo no asilo.
– Para com isso! Será?
– Faz sentido, não faz?
– Santa Mãe de Deus. Se for isso…
– Escreve o que tô dizendo.
De fato, na eleição seguinte, o heroico Zé se candidatou a vereador. Inclusive, sendo eleito. O que nos leva a crer que, se o maior traço de caráter do brasileiro é tirar o mérito alheio, o segundo maior é facilitar o serviço e dar motivos pra isso.

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2 comentários sobre “HERÓI NACIONAL

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